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Brasil: A Venezuela das Terras Raras

Publicada em 2026-01-12



Desde a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, a Venezuela está dominando o noticiário. E não poderia ser diferente: uma das muitas discussões geradas a partir desse acontecimento é a potencial abertura de seus mercados, mais especificamente de petróleo.   

É importante notar que o país vizinho possui a maior reserva de petróleo do mundo. Entretanto, quase não explora esses recursos. A sua participação no mercado global, desde que passou a sofrer com embargos e sanções econômicas, caiu drasticamente.   

Hoje, a Venezuela conta com uma infraestrutura antiga, quase que sucateada.  

O paralelo sugerido no título desta newsletter refere-se à importância estratégica que o petróleo venezuelano tem para os EUA no rearranjo geopolítico.  

Essa reserva não significa só controle inflacionário – como alguns têm apontado ser um dos motivos da intervenção americana por lá –, mas segurança energética de longo prazo e, principalmente, dominância geopolítica da região.  

Essa mesma discussão da independência de recursos naturais americana também está acontecendo em relação às Terras Raras.  

Hoje, a China concentra não só a maior parte da mineração mundial, com cerca de 70%, mas também as reservas (cerca de 50% do total global). E, nesse assunto, o Brasil aparece em uma posição de destaque, assim como a Venezuela apareceu em relação ao petróleo.  

O Brasil possui a segunda maior reserva de Terras Raras no mundo. Entretanto, tem uma mineração baixíssima, inferior a 1% do total. É um número quase insignificante diante da gigante China.  

Para os EUA, que precisam de acesso a esses elementos, ficar refém do país asiático, que por diversas vezes utiliza essa dominância como ameaça e mecanismo de barganha em negociações, não é mais uma opção viável.  

Portanto, a aproximação americana com esse interesse em mente faz todo o sentido. O Brasil não só é um país culturalmente muito alinhado com os EUA, como está posicionado em um continente onde a China ganhou muita influência e participação nos últimos anos. Esfriar essa relação latino-americana com os asiáticos seria igualmente interessante para os americanos.  

Nesse ponto, o Brasil tem em suas mãos uma moeda muito valorizada e que, se negociada corretamente, poderia trazer a maior economia do mundo para mais perto em um momento em que esse relacionamento vem passando por altos e baixos.   

A posição brasileira é privilegiada economicamente, pois contém recursos desejados pelos americanos, mas ignorados pelos chineses, no caso das Terras Raras – assim como há recursos desejados pelos chineses, mas de menor interesse para os americanos, como alimentos, minério de ferro, entre outros que já exportamos para o país asiático. 

Ou seja,temos o privilégio que poucos países têm de poder negociar e comercializar com as duas maiores potências econômicas do mundo, e tratando de produtos que realmente interessam a ambas. Para tirar proveito disso, claro, a política tem papel crucial.

Países com maiores reservas de Terras Raras 
(em milhões de toneladas)

Fonte: USGS - U.S. Geological Survey 
Elaboração: EQI Research
Para os EUA, que precisam de acesso a esses elementos, ficar refém do país asiático, que por diversas vezes utiliza essa dominância como ameaça e mecanismo de barganha em negociações, não é mais uma opção viável.  

Portanto, a aproximação americana com esse interesse em mente faz todo o sentido. O Brasil não só é um país culturalmente muito alinhado com os EUA, como está posicionado em um continente onde a China ganhou muita influência e participação nos últimos anos. Esfriar essa relação latino-americana com os asiáticos seria igualmente interessante para os americanos.  

Nesse ponto, o Brasil tem em suas mãos uma moeda muito valorizada e que, se negociada corretamente, poderia trazer a maior economia do mundo para mais perto em um momento em que esse relacionamento vem passando por altos e baixos.   

A posição brasileira é privilegiada economicamente, pois contém recursos desejados pelos americanos, mas ignorados pelos chineses, no caso das Terras Raras – assim como há recursos desejados pelos chineses, mas de menor interesse para os americanos, como alimentos, minério de ferro, entre outros que já exportamos para o país asiático. 

Ou seja,temos o privilégio que poucos países têm de poder negociar e comercializar com as duas maiores potências econômicas do mundo, e tratando de produtos que realmente interessam a ambas. Para tirar proveito disso, claro, a política tem papel crucial.  

 
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Mas depois de falar tanto sobre o contexto geopolítico das Terras Raras, o que elas realmente são? Por que são tão valiosas para os EUA? 
 

A importância das Terras Raras

As Terras Raras constituem um grupo de 17 elementos químicos. Apesar do nome, as reservas não são particularmente raras na natureza, mas encontram-se dispersas em concentrações baixas, e suas jazidas economicamente viáveis são menos comuns.  

Ou seja, os elementos raros não são obtidos como elementos puros da natureza; na verdade, são extraídos de minerais que contêm pequenas proporções desses elementos.


O grande desafio é que, devido à similaridade química dos 17 elementos, os processos de separação são extremamente complexos, exigindo técnicas de extração por solventes e etapas químicas de alto custo, longo prazo e maior rigor ambiental. 

Sem contar que a presença de resíduos radioativos torna a extração ainda mais delicada. 

As Terras Raras tornaram-se cruciais porque permitem o funcionamento de tecnologias fundamentais. Alguns elementos são essenciais para a fabricação de ímãs permanentes de alta eficiência, presentes em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos, por exemplo.  

Outros são usados em telas, iluminação por LED, lasers e até no refino de petróleo. Além disso, diversas aplicações militares dependem diretamente de Terras Raras, como sistemas de radar, mísseis guiados, satélites, sensores ópticos e ligas metálicas para aeronaves e submarinos.  

Na área da saúde, também desempenham papéis essenciais, estando presentes em imagem por ressonância magnética e equipamentos de tratamento radioterápico. 

O interesse internacional pelas reservas brasileiras cresce porque o país reúne grandes depósitos, estabilidade geológica e potencial para se tornar um fornecedor confiável. 

Entretanto, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos para desenvolver uma cadeia completa: a burocracia no licenciamento ambiental, a falta de domínio tecnológico nas etapas de separação química, a necessidade de investimentos robustos e os custos associados ao manejo de resíduos radioativos.
 

Futuro aponta crescimento da demanda 

Os investimentos por aqui só começaram em 2024, quando a Mineração Serra Verde, maior operação do país, desenvolveu sua atividade integrada em Goiás.Outras iniciativas que estão em curso, como a St. George Mining, a Viridis e a Meteoric – todas ainda não operacionais –, podem colocar o Brasil como o quarto maior produtor do mundo em 2030.   

O futuro aponta para uma demanda crescente, sobretudo por ímãs permanentes, que são fundamentais para a economia verde e para aplicações militares de alta tecnologia. Também há uma tendência de “desglobalização” das cadeias, com EUA, Europa e Japão buscando parceiros alternativos e tentando internalizar parte da produção.  

A produção de ímãs, em vez da simples extração mineral, deve ganhar destaque por agregar valor e reduzir dependências. Tecnologias mais sustentáveis de separação química estão sendo desenvolvidas por diversos países, e o Brasil pode se beneficiar desse movimento se investir em pesquisa, inovação e integração industrial.  

Em suma, as Terras Raras estão no centro de uma disputa econômica, tecnológica e geopolítica global. São elementos fundamentais para a transição energética, para a digitalização e para a indústria de defesa.  

E o Brasil, embora ainda explore de forma limitada seu potencial, possui uma das maiores reservas do planeta e pode assumir papel estratégico no mercado internacional. 

Nícolas Merola, CNPI 
Gabriel Iglesias 



Fonte: EQI